Uma pesquisa da IDC com a Lenovo, de 2025, apontou que 88% das provas de conceito de IA não chegam à produção: de cada 33 PoCs, só 4 viram algo usado de verdade. O Gartner previu que 30% dos projetos de IA generativa seriam abandonados depois da PoC até o fim de 2025, por causa de dados ruins, controles de risco fracos, custos crescentes e valor de negócio pouco claro. E a S&P Global mostrou que 42% das empresas abandonaram a maior parte das iniciativas de IA em 2025, contra 17% no ano anterior.
| 88%
das PoCs de IA não chegam à produção (IDC/Lenovo) |
30%
dos projetos de IA generativa abandonados após a PoC (Gartner) |
42%
das empresas abandonaram a maioria das iniciativas em 2025 (S&P Global) |
Esses dados são sobre IA, mas o problema não é da IA. Já vi o mesmo acontecer em projetos de identidade, virtualização e automação. Neste artigo quero responder a uma pergunta: por que o piloto dá certo e a produção trava, e o que dá para fazer diferente?
Piloto responde uma pergunta, produção responde outra
Costumo explicar assim para quem não é da área: cozinhar para a família no domingo não é a mesma coisa que abrir um restaurante. A receita pode ser idêntica. Mas o restaurante precisa de fornecedor, estoque, equipe, vigilância sanitária, preço que feche a conta e um plano para quando o fogão quebrar numa sexta à noite.
O piloto responde “isso é possível?”. A produção responde “isso funciona todo dia, para todo mundo, com segurança e a um custo que se paga?”. O erro mais comum que vejo é usar a resposta da primeira pergunta como se fosse a resposta da segunda.
Por que o piloto quase sempre dá certo
O piloto roda em condições que a produção nunca vai ter:
- Poucos usuários, e geralmente os mais animados. Quem se oferece para testar gosta de novidade e tem paciência com falhas.
- Dados escolhidos a dedo. A base real tem cadastro duplicado, campo vazio e atributo preenchido de três jeitos diferentes.
- Especialista do lado. Se algo quebra, alguém resolve na hora. Em produção, quem atende é o service desk às 7h da manhã.
- Exceções empurradas para depois. E esse “depois” é justamente a produção.
- Custo que não aparece. Licença de avaliação, crédito de nuvem e hora de gente que não entra na conta.
Nada disso é errado num piloto. Errado é esquecer que foi assim que ele rodou.
O que eu vi travar na prática
Vou contar alguns casos reais, sem citar clientes, porque eles ensinam mais do que qualquer teoria.
1. O piloto que expôs uma política esquecida
Num piloto de Windows Hello for Business (login no Windows por biometria ou PIN, sem senha), os usuários começaram a perder a sessão sem motivo aparente. A causa não estava no Windows Hello. Estava numa política de Acesso Condicional que já existia em produção: ela exigia um nível de autenticação multifator personalizado que não incluía o Windows Hello como método aceito.
Ou seja, a tecnologia nova funcionava. O que quebrou foi a interação com o que já existia. Em laboratório isso nunca apareceria, porque o laboratório não tem anos de políticas acumuladas. E teve um segundo ponto: o comportamento padrão forçava o cadastro logo após o login, e o piloto precisava de adesão voluntária. Foi preciso ajustar a configuração para respeitar o ritmo das pessoas, não só o da tecnologia.
Lição: o piloto deve rodar no ambiente real, com as políticas reais, ainda que para poucos usuários.
2. Laboratório limpo, produção cheia de histórico
Num projeto de sincronização de atributos entre o Active Directory e o Microsoft Entra ID (datas de admissão e desligamento, usadas para automatizar o ciclo de vida do colaborador), tudo funcionou no laboratório. Na produção apareceram três problemas: conflito de precedência entre regras de sincronização, um erro numa regra antiga e não relacionada que gerava milhares de falhas, e uma permissão de API que ninguém tinha previsto.
Nenhum desses problemas era do projeto em si. Eram do ambiente. Só consegui colocar em produção depois de resolver tudo e formalizar a mudança num documento de GMUD aprovado pelo comitê de mudanças, com plano de retorno.
Lição: o ambiente de produção tem memória. Reserve tempo para o que você não criou, mas vai herdar.
3. Quando o problema está do outro lado da integração
Numa integração do SAP SuccessFactors (sistema de RH) com o Active Directory, a API retornava vazio. Parecia erro de mapeamento. Depois de muito diagnóstico, a conclusão foi que faltava uma configuração do lado do SuccessFactors, que era de responsabilidade de outra equipe.
Lição: integração tem dois donos. Se só um lado está no projeto, o projeto anda na velocidade do lado que não está.
4. A regra de negócio que o piloto não tinha
Numa implantação de redefinição de senha self-service (SSPR), o requisito parecia simples: o usuário troca a própria senha sem ligar para o suporte. Na hora de pensar na escala, apareceram as regras reais do negócio. Matriz, centros de distribuição e lojas precisavam de restrições diferentes por localidade. Em algumas unidades, só determinados cargos podiam usar o recurso. E a licença disponível não cobria toda a base de usuários.
Por isso optei por testar num tenant de laboratório separado e alimentar o grupo de escopo de forma automatizada, com Lifecycle Workflows, para controlar exatamente quem entra em cada onda.
Lição: o requisito de verdade quase nunca está no primeiro briefing. Ele aparece quando você pergunta “e na loja, como fica?”.
5. A licença que ninguém orçou
Num projeto de governança de identidade para remover acessos de colaboradores afastados de forma automática, a solução técnica ficou pronta no laboratório. O que travou foi o licenciamento: o recurso exige um plano específico que não estava previsto no orçamento.
Lição: custo e licença são critério técnico, não detalhe administrativo. Descobrir isso no final mata o projeto.
Como faço a transição hoje
Depois de apanhar algumas vezes, passei a seguir alguns princípios.
Critérios: combinar a saída antes de entrar Antes de começar, deixo escrito:
- qual problema de negócio estamos resolvendo;
- qual número prova que deu certo (por exemplo, “reduzir X% dos chamados de senha”);
- o que faz a gente parar;
- quem decide e quando.
Sem isso, o piloto termina em “achei bom” e fica esperando uma decisão que nunca chega.
Métricas: olhar além da parte técnica Meço em quatro frentes:
| Frente | Pergunta | Exemplo |
| Técnica | Funciona e é estável? | Disponibilidade, taxa de erro |
| Operacional | Dá para sustentar? | Chamados gerados, tempo de resolução |
| Negócio | Gera valor? | Horas economizadas, custo evitado |
| Adoção | As pessoas usam? | % de usuários ativos |
Um piloto medido só na parte técnica mostra metade da história.
Governança: dono, papéis e mudança formal
- Patrocinador que garante orçamento e prioridade.
- Dono da solução depois da entrada em produção, não só durante o projeto.
- Segurança, operação e suporte envolvidos desde a primeira semana, não na véspera.
- Gestão de mudança formal, com janela, plano de retorno e aprovação.
- Documentação ao final de cada etapa. Tenho o hábito de fechar cada assunto com um artigo de base de conhecimento, para que a solução não dependa da minha memória.
Arquitetura: construir o piloto como se fosse ficar
Na migração de cargas de VMware para OpenShift Virtualization de que participei num grande ambiente financeiro, o que fez diferença foi não tratar nada como provisório: automação com Ansible, padrões definidos, estratégia de recuperação de desastre com RPO e RTO claros. Na prática, recomendo:
- Infraestrutura como código: se o ambiente não pode ser recriado por script, ele não está pronto.
- Segurança desde o desenho: privilégio mínimo, nada de conta genérica “só para testar”.
- Observabilidade desde o primeiro dia: logs, métricas e alertas.
- Pelo menos uma integração real no piloto, para os problemas aparecerem cedo.
- Nomenclatura rígida quando o teste precisa rodar em produção, para isolar o piloto dos usuários reais.
- Plano de retorno para toda mudança.
O passo a passo que eu sigo
- Defina o problema de negócio, não a ferramenta.
- Combine critérios de sucesso e de parada.
- Valide licenciamento e custo em escala antes de começar.
- Teste em laboratório, mas pilote no ambiente real, com as políticas reais.
- Escolha um grupo piloto que represente todos os perfis (matriz, loja, remoto), não só a TI.
- Expanda em ondas, revisando as métricas a cada etapa.
- Formalize a mudança, com documentação, treinamento do suporte e dono definido.
- Continue medindo depois do go-live.
Erros que eu evito
- Piloto eterno: estender o teste para não ter que decidir.
- Grupo piloto só com a TI: ele não representa a empresa.
- Segurança no fim: vira retrabalho, e às vezes o projeto não passa.
- Licença e custo “para depois”: é onde muito projeto morre.
- Herói no lugar de processo: se só funciona com você do lado, não está pronto.
- Ignorar o ambiente legado: as políticas e regras antigas vão interagir com a solução nova.
- Não ter caminho de volta: toda mudança precisa de rollback.
Conclusão
Quase nenhum dos projetos que vi travar falhou por causa da tecnologia. Eles travaram porque o piloto respondeu “é possível?” e alguém tratou isso como “está pronto”. O que separa as duas coisas é bem pouco glamouroso: critério combinado antes, métrica além da técnica, dono definido, segurança desde o início e uma arquitetura que não precisa ser jogada fora.
E vale lembrar: encerrar um piloto com base em dados também é um sucesso. Ruim é gastar um ano empurrando algo que nunca iria se sustentar. É nesse caminho que a DBC pode contribuir, conectando tecnologia, eficiência operacional e governança para transformar pilotos em resultados sustentáveis e escaláveis.